Foi no Rio de Janeiro que, em 1929, Tarsila do Amaral fez sua primeira mostra individual no Brasil. Depois, expôs na cidade em 1933 e em 1969. Desde então, a artista modernista que talvez seja a mais frequente no imaginário popular nunca mais teve uma exposição na cidade. O CCBB quebra o jejum de 43 anos com “Tarsila do Amaral — Percurso Afetivo”, reunião de 85 obras da artista. Estarão presentes obras como Auto-retrato II, de 1926; Pont Neuf, de 1923; O Mamoeiro, de 1925; Paisagem com Touro, de 1925, e ainda, A Negra, Estrada de Ferro Central do Brasil e Operários.
Para o curador Antônio Carlos Abdalla, em “Antropofagia” (1929) estão reunidos os personagens das telas “Abaporu” e “A negra” — esta última, conta ele, foi criada pela artista a partir de uma foto de sua babá. O retrato dela foi encontrado pela família de Tarsila num de seus diários e será parte da montagem carioca. Outro dos diários, o de viagens que ela fez quando casada com Oswald de Andrade, foi usado como fio condutor da exposição.
— Tarsila pega notas de restaurantes, bilhetes de viagens de trem, fotografias, pouquíssimas coisas escritas e cria um diário visual da viagem. Não é textual. Isso tem uma forma um pouco caótica. Não se tem domínio absoluto de uma recordação. As memórias surgem no momento e vão sendo coladas no papel de uma maneira um tanto aleatória — conta o curador.
Inspirado pelo diário visual da modernista, ele optou por não organizar as obras no CCBB a partir de classificações acadêmicas. “Tarsila do Amaral — Percurso afetivo” é, como define, “uma mostra de colagens de obras da artista”.
A proposta livre permitiu a Abdalla, por exemplo, agrupar três telas em que Tarsila retrata o Rio no que chama de “trilogia carioca”. Assim, o público verá na sequência “Morro da favela”, “Estrada de ferro Central do Brasil” e “Carnaval em Madureira”, telas que são da fase conhecida como “Pau brasil”, todas de 1924, ano em que ela chegou à capital fluminense.
Do Rio, Tarsila e os modernistas partiram para Minas Gerais, onde, conta Abdalla, fazem “a redescoberta do Brasil, em que se valoriza o barroco mineiro”.
Dois anos depois da chegada ao Rio, Tarsila abre sua primeira individual em Paris, com crítica bastante favorável. No mesmo ano, ela se casa com Oswald de Andrade, e os dois viajam pela Europa e pelo Oriente Médio.
— Conta a lenda que a beleza estonteante de Tarsila parava pessoas nas ruas de Paris. Ela sempre teve essa coisa de mito da mulher deslumbrante, bonita, elegante, com dinheiro e talento. Mas não gosto de deixar de lembrar que, ao mesmo tempo, ela teve a vida muito marcada pela tragédia — defende.
Dor e esplendor
Tarsila perdeu a única filha, Dulce, e, mais tarde, a única neta, Beatriz, que pintou em vários retratos. Sua família, bastante rica, perdeu recursos na Crise de 1929.
Ainda assim, o esplendor de Tarsila é presença marcante na exposição seja pela exuberância de cores nas telas ou pelos objetos pessoais. Uma estola e um bracelete criados para ela por Paul Poiret, o estilista da alta sociedade francesa na década de 1920, foram cedidos pela família para a montagem.
A responsável pela obra de Tarsila entre os descendentes da modernista é sua sobrinha-neta, que carrega seu nome — e ganhou o apelido carinhoso de Tarsilinha, para se diferenciar da célebre tia-avó. Ela ainda cedeu para a mostra no CCBB pincéis, espátulas e um Moleskine com desenhos e anotações.
— É sempre um conjunto tão bonito de ser exibido reunido — diz Tarsilinha, 47 anos, que tinha oito quando a artista morreu, em decorrência de complicações após uma operação na vesícula, em 1973. — Era uma tia muito próxima, eu era a queridinha. Me lembro tanto dela, dos corredores da casa na (rua) Albuquerque Lins (em Higienópolis, São Paulo), da sala, dos quadros, de nós duas na casa.
Tarsilinha, que organizou o catálogo raisonné da artista, diz que conseguir 85 obras de Tarsila é “uma tarefa árdua”. O curador concorda. Para ele, os colecionadores têm uma relação afetiva com a obra da artista.
— Todos são muito ciosos de suas telas — afirma.
Além da exposição aberta agora, a artista ganhará em março mais uma reunião de suas obras — no livro “Tarsila — Os melhores anos” (M10 Editora), que trará imagens de seus trabalhos e sua história contada pela crítica Maria Alice Milliet.
Serviço
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março, 66, Centro – RJ
Até 29 de abril de 2012
Horários: De terça a domingo, 09h às 21h
Grátis
Fonte: O Globo